terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Escritor paraense lança primeiro livro com 100% de patrocínios vindos da Internet




O jornalista e escritor Anderson Araújo, 34, lança o livro "Bêbado Gonzo e outras histórias", dia 5 de março próximo, na Fox Vídeo da Travessa Doutor Moraes, às 18h30. São 25 contos e crônicas, entre textos inéditos e reeditados do blog homônimo criado em 2009. Com histórias com personagens, cenários e situações de Belém, fugindo do regionalismo tradicional, a publicação foi viabilizada com apoios feitos por crowdfunding,  financiamento coletivo através da Internet, inaugurando no Pará uma nova forma de captação de recursos para autores sem editora.
Bêbado Gonzo passou uma campanha de arrecadação de dois meses. O projeto para financiar o livro ficou hospedado no mais tradicional site de financiamento coletivo do Brasil, o Catarse (www.catarse.me), criado em 2009. O autor estipulou o valor de R$ 6.818 para produzir a primeira tiragem e, ao final da empreitada, conseguiu R$ 8.010. Para Anderson, a nova forma de captação de recursos pode ser uma alternativa ao eterno "pires na mão" dos novos escritores ainda sem editora ou patrocinadores para tornar um projeto literário em realidade. 
"Foi uma alternativa satisfatória, principalmente, em se tratando de Belém, uma cidade com pouca tradição de editores, de gente realmente interessada em produção nova para transformar em produto e colocá-lo nas estantes para a venda. Espero que experiência com o Bêbado Gonzo estimule novos autores a transformarem suas ideias em livros de verdade. Torço por isso", diz o escritor.
O livro recebeu apoio em doações em dinheiro, entre R$ 20 e R$ 1 mil, de 91 pessoas de Belém e várias cidades paraenses, como Castanhal, Marabá, Paragominas, Santarém e Tucuruí, mas também de municípios de outros Estados como Macapá, Fortaleza, Brasília, São Paulo e Porto Alegre. Segundo o idealizador da proposta, o êxito da campanha está ligado à boa vontade dos que já conheciam os textos no blog, mas também a facilidade de comunicação e propaganda através das redes sociais virtuais, como Facebook e Twitter.
O livro tem contos e crônicas que mostram detalhes pitorescos e situações típicas de Belém, como na crônica de abertura do livro "O choro da pata" e no conto/crônica "O conto secreto do maldito palhaço assassino de gatos". A obra tem ainda situações improváveis como o a capital paraense sob ameaça no conto "Zumbis em Belém" e a prisão de um serial killer de corruptos em "O assassino". Há ainda textos líricos e íntimos como "A visita", "A máquina de escrever" e "O canto do galo", mas também situações tragicômicas baseadas em relatos cotidianos e nas observações do autor, como repórter que é há quase dez anos, é o caso de "Rasga-bíblia", "Maquinho Galo Duro" e "A balada perdida de Carlos Enoque".
"Bêbado Gonzo"  foi editado pelo autor e tem projeto gráfico da designer e publicitária Gabi Dias, ilustrações de  Diego Michel e diagramação de Érico Miranda. O livro tem 192 páginas e estará à venda nas lojas da Fox Vídeo (na Travessa Doutor Moraes e na Doca de Souza Franco) por R$ 29,90.  Em breve, a publicação também estará disponível em Ebook.

Serviço:
O livro "Bêbado Gonzo e outras histórias", de Anderson Araújo, será lançado no dia 5 de março (terça-feira), a partir das 18h30, na Fox Vídeo, que fica na Travessa Doutor Moraes, 584, bairro de Batista Campos, entre a Avenida Conselheiro Furtado e Rua dos Mundurucus.

Confira o Trecho da crônica de abertura do livro, "O choro da pata":
"(...) O pato e a pata pareciam conscientes do seu destino. Nas horas derradeiras, eles perceberam a movimentação e não saíram para o quintal. Ficaram ambos acuados no canto onde dormiam, faziam amor e ela colocava os ovos, com os olhos arregalados que os patos têm a vida inteira.
Da janela, ficamos olhando os dois, morrendo de dó. Condenados à morte por crime nenhum. Muita injustiça. Minha irmã Andréa chorava e eu ali, indignado e de mãos atadas contra a tirania dos adultos.
A hora havia chegado e minha tia Kátia, sem muito preparo para a tarefa, foi ser o verdugo das aves. Por algum motivo desconhecido, ela pegou primeiro o patarrão. Ficamos apavorados.
Ele se debateu todo, mas foi dominado pelas asas. Era um bicho bonito, grande, com penas escuras meio esverdeadas, a cabeça branca e aquela membrana vermelha em cima do bico, para dar o charme.
Resolvi me traumatizar de propósito e assistir o abate do amigo emplumado. Era minha forma de dizer adeus. Ele foi levado para o jirau e levou uma pancada para ficar zonzo e não se mexer muito durante a decapitação. Quando a faca foi baixar no pescoço, não tive coragem de olhar. Desviei e o mundo começou a apresentar as surpresas próprias do caos.
Sem muita força, Kátia jamais desconfiou que o bicho não desistiria fácil. No golpe mal dado, o animal se desprendeu, saiu rebatendo panelas, derrubando cacarecos e lambuzando o quintal de sangue para desespero dos pequeninos que já estavam na porta da cozinha para assistir à cena bizarra.
Ninguém teve coragem de impedir a última caminhada do patarrão que, como um zumbi, andava milagrosamente com a cabeça pendurada por um fio de pele, degolado. Mesmo morto, ele tomou o caminho de sempre e foi para o canto que sempre ficava com sua companheira.
Corremos para a janela lateral para acompanhar aquele espetáculo inacreditável. Ao ver o marido chegar, sem cabeça, em andar troncho dos mortos-vivos, a pata recuou até onde não pode mais, como se fugisse do horror, e ficou imóvel diante da cena.
Com a ferida letal, o pato parou a pouco mais de um metro da fêmea e deu os últimos suspiros já sem nenhuma força para continuar sua demonstração impressionante de resistência.
A essa hora as crianças já choravam. Os primos menores, sem entender muito, ficavam na ponta do pé para espiar pela janela o que estava acontecendo e os adultos também pararam tudo para olhar. Minha mãe inclusive lamentou não ter uma filmadora para registrar aqueles momentos estranhíssimos.

Muito comovido, assisti a todo o desenrolar do último adeus do pato e, diante do fato, o primeiro sinal de vocação para a função que me acompanha até hoje se revelou e estampei a manchete sonora: OLHEM! A PATA ESTÁ CHORANDO! (...)".

Confira a orelha do livro escrita pelo jornalista Paulo Silber:

"Não é de hoje que jornalismo e literatura se cutucam – com ternura e implicância.

Eis que surge o Anderson Araújo, com seu jeitão atrapalhado, para impor ordem na mistura. Para orgulho de Dona Clarisse, se fez repórter, mas deixou guardadinha a identidade secreta de escritor. Agora, Anderson se expõe sem medo. Como um Clark Kent com a sunguinha do Superman sobre o paletó.

O namoro entre jornalismo e literatura é amor explícito. Feito a paixão do quarentão Tomás Gonzaga pela ninfeta Maria Doroteia – no poema que faz a gente desejar uma Marília pra nos chamar Dirceu. Noutras vezes, é romance dissimulado. Como o olhar melífluo de Capitu para Escobar – na prosa que nos impede de ser tão casmurros. 

Enfim, é uma relação sedutora, alinhavada pela paixão por palavras, a compulsão por leituras, qualidades que afloram nas crônicas do Anderson Araújo. Elas são atrevidas, mas românticas. Sublimes e sarcásticas. Até mesmo agressivas, enquanto acariciam. São tão objetivas quanto insinuantes. Subjetivas, sem dispensar a narração pragmática dos fatos.

O Anderson, afinal de contas, é jornalista – mesmo quando não parece. Mas é em essência escritor – até quando não pretende.
 
Parodiando Dom Casmurro: ele tornou-se melhor discípulo do que os mentores. Como o Dirceu de Marília, percebeu que se tornam frias as glórias que vêm tarde e tratou de aquecê-las. Tornou-se um contador de histórias vestido de repórter, em pele de escritor. Só faltou a sunguinha do Superman, mas isso Dona Clarisse não aprovaria."