domingo, 29 de agosto de 2010

Quando a Doença vem da Emoção - Somatização

A somatização tem de ser tratada, pois pode enfraquecer as defesas do organismo.


Basta passar por uma situação muito difícil, estressante ou problemática que o corpo fica diferente: a cabeça dói, o resfriado aparece, a digestão se complica, a respiração fica difícil ou a pele se enche de alergias. O fato não é uma simples coincidência, mas um processo chamado pela medicina de somatização, ou seja, a transferência para o corpo do que deveria ser vivido e suportado apenas na mente.
Segundo os profissionais que trabalham com a medicina psicossomática, todas as pessoas acabam provocando mudanças no corpo ao enfrentar determinadas situações emocionais, principalmente as que produzem stress e ansiedade. O que muda é a intensidade e a freqüência com que isso acontece - de eventos ocasionais a transtornos repetitivos, que acabam se tornando crônicos.

Desse modo, cada vez que uma pessoa não consegue suportar no plano psíquico uma situação, ela acaba produzindo ou agravando sintomas e doenças que se manifestam no corpo. Palpitações, gastrite e dores de cabeça estão entre os sintomas mais comuns, mas a somatização pode deixar o organismo com menos defesas para doenças sérias, como câncer, além de prejudicar a recuperação de uma cirurgia, por exemplo.
"O stress e a ansiedade são os principais fatores que acabam por influenciar no aparecimento, na manutenção ou repetição de uma doença física, porque eles alteram o funcionamento de vários sistemas do nosso organismo", explica o psiquiatra Carlos Andrade, diretor-científico do Comitê de Medicina Psicossomática da Associação Paulista de Medicina.

No entanto, é possível controlar e até mesmo evitar que isso aconteça. Mas a receita, que não é fácil e muito menos rápida, inclui o autoconhecimento, a descoberta de válvulas de escape e uma mudança na maneira de encarar os problemas e reagir a eles, de preferência com acompanhamento de um psicoterapeuta.
SINAIS CEREBRAIS
Apesar de mudar de pessoa para pessoa, a somatização é explicada cientificamente. Raiva, paixão, tristeza, medo e uma série de emoções causam alterações no organismo, liberando ou inibindo a produção de substâncias, como adrenalina, cortisol e serotonina.

Quando a pessoa fica durante muito tempo submetida a uma situação diferente, ela desencadeia mudanças no sistema nervoso autônomo, responsável pelos batimentos cardíacos, pela temperatura corporal, pela digestão, pela respiração e pela sexualidade. Além disso, provoca mudanças no sistema endocrinológico, que produz uma série de hormônios, e no sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo.
Desse modo, a bagunça no corpo começa e os sintomas aparecerem - o local escolhido depende da herança genética e racial de cada pessoa. "O indivíduo tende a somatizar nas áreas do corpo que já estão mais fragilizadas ou já tiveram um problema no passado. Depende das reações e da composição física de cada pessoa", afirma Andrade.

Mesmo assim, os médicos afirmam que existe um perfil geral do somatizador: pessoas extremamente ligadas ao mundo real, que dão pouco espaço para elaborações psíquicas e em cuja vida não há muito espaço para fantasias e imaginação. Sendo assim, acabam tendo pouco contato e tempo para suas questões psicológicas.
"Como não conseguem eliminar as tensões de uma forma natural, aparecem essas válvulas artificiais e as pessoas desenvolvem doenças físicas que têm certamente origem emocional. A gastrite, por exemplo, pode ser uma patologia do aparelho digestivo que se desenvolve à medida que aumentam o stress e o desgaste do paciente", diz o psiquiatra Leonard Verea, especialista em psicossomática.
Em algumas pessoas, o problema se acentua e aparece de uma outra maneira. Ou seja, a pessoa sente sintomas de várias doenças, é examinada pelos médicos, faz exames, mas não encontra nada no corpo que explique o que sente. Nesse caso, não há doença física com o problema emocional. É o transtorno de somatização, estudado pela psiquiatria.

"O paciente sente sintomas no corpo sem que haja uma causa física que explique aquilo. E ele sofre porque não encontra uma causa. Geralmente, são pessoas que recusam fazer um acompanhamento psicológico", explica o psiquiatra José Atílio Bombana, do Programa de Atendimento e Estudos de Somatização da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

TRATAMENTO
Há cerca de dois anos, ao passar por problemas familiares, a estudante de administração hoteleira Júlia Moraes Ramos, de 22 anos, começou a sentir dores do estômago e a vomitar constantemente. Foi ao médico e teve o diagnóstico: gastrite. "Ele me receitou remédios e um calmante natural, para eu tomar quando ficasse muito nervosa. Era muito rápido. Eu ficava nervosa, preocupada e uma hora depois começa a doer meu estômago, apareciam aftas na minha boca, eu chorava", conta.
Logo depois, e seguindo a recomendação do médico, Júlia procurou uma terapeuta. "Ela falou para mim que quando tenho um problema que não consigo digerir acabo atacando o meu estômago. Depois da terapia melhorei bastante, aprendi a não ficar fazendo mal para mim, tento me entender e me controlar", diz.
A estudante seguiu o caminho mais recomendado pelos médicos. Segundo eles, apenas tomar remédios para aliviar os sintomas ou curar a doença não são suficientes. Sem mexer na origem do problema, a somatização continuará. "A pessoa precisa ter a humildade de se olhar no espelho e dizer: eu preciso mudar. E ter a coragem para mudar. Senão ficará se repetindo para sempre", observa o psiquiatra Verea.
"A mudança acontece quando consigo conhecer minha capacidade, incapacidade, bondade e maldade. Aí a pessoa pode discernir o que sente, o que é dela e o que está absorvendo do ambiente em que está", diz a psicóloga Maria Rosa Spinelli, da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.

O QUE É
SOMATIZAÇÃO: É a transferência para o corpo de situações e sentimentos que deveriam ser vividos no plano psíquico. Acontece quando fatores emocionais influenciam no aparecimento, manutenção e repetição de uma doença física, tornando-a um problema crônico na vida da pessoa.

SEM CAUSA: Em alguns casos, a pessoa sente dores e apresenta sintomas de diversas doenças, mas não há, nesses casos, nenhuma explicação física para isso. São pacientes que freqüentam muito hospitais, que buscam descobrir a causa dos sintomas e geralmente se recusam a aceitar que eles têm uma origem emocional.

COMO ACONTECE: Em situações fortes de stress e ansiedade, por exemplo, ocorrem alterações no sistema nervoso, no sistema endócrino e no sistema imunológico. Com isso, podem ocorrer alterações hormonais e queda na resistência, entre outros. A pessoa fica com uma propensão maior a ter uma série de doenças, inclusive câncer.

PRINCIPAIS SINTOMAS: Podem se manifestar de diversas maneiras, dependendo de pessoa para pessoa, desde doenças simples até casos mais graves. Mas os mais comuns são gastrite, herpes, dor de estômago, alterações no funcionamento do intestino, dores no corpo, palpitação e falta de ar, problemas de pele, dores de cabeça e problemas na tireóide.

O QUE FAZER
NO CONSULTÓRIO: É importante procurar um médico que, além de receitar remédios e pedir exames, leve em conta, na hora de examinar o paciente, os aspectos emocionais que podem interferir de alguma maneira na doença apresentada. Muitas vezes, a pessoa só percebe que os sintomas podem ter uma relação psicológica quando ouve isso do médico.

SEM MÁSCARAS: Não adianta tentar passar por cima de problemas e situações traumáticas simplesmente ignorando-as ou esquecendo-as. A pessoa precisa vivenciar e sentir as tensões para depois conseguir tirá-las da mente. Somente ao entrar em contato com esses entraves, é possível expulsá-los da mente e não somatizá-los, adoecendo o corpo.

ATIVIDADES: É importante extravasar os sentimentos e não guardá-los ou reprimi-los. Conversar e desabafar com amigos pode ser uma boa alternativa para quem não pode ou não gosta de procurar um psicoterapeuta. Praticar esportes, fazer aula de dança, tocar um instrumento também são atividades que ajudam a liberar os sentimentos que podem estar guardados e escondidos.

PAUSAS: Todo mundo precisa de uma pausa para se reciclar e recuperar as energias. É importante tentar colocar paradas e momentos de calma no cotidiano.

Por Simone Awasso
Adaptado por Marcos Castello Branco

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